quinta-feira, 26 de março de 2020

CRISES E OPORTUNIDADES


Dia desses assisti a uma videoconferência com o Secretário da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, que disse que o momento não é de defender teses de direita ou esquerda, mas de planejamento e cautela. Claro que nem todos pensam assim, a começar pela queda de braço travada entre governos, estimulada por parte da mídia, pondo fogo na opinião pública que defende teses das mais absurdas.
Coincidentemente, em janeiro deste ano li um livro que falava sobre a grande depressão de 1929, uma crise que começou nos EUA logo após a Primeira Guerra Mundial, provocada não por um vírus, mas por um sentimento de que todos seriam ricos, ainda mais embalados por alguns anos prósperos. Mas a Europa no pós-guerra começou a se reerguer e diminuiu a importação dos Estados Unidos, que continuou produzindo na mesma escala, achando que o quadro voltaria a se reverter. Nem é preciso ser expert em economia pra saber que um estoque de produtos alto gera uma queda de preços. Resultado? Muitas empresas quebraram e se iniciou a queda das ações desacelerando a economia, encolhendo o produto interno bruto gerando uma recessão fortíssima que durou muito tempo. O curioso é que o governo da época, através do FED (Federal Reserve System), ou “Sistema de Reserva Federal”, algo semelhante ao nosso Banco Central, além de não ter feito nada para evitar a crise, fez estimulá-la, e quando a quebra chegou, o governo americano declarou que não era problema dele. Mesmo com tudo isso, vemos que o império americano ainda é dominador no mundo, tudo graças a sua resiliência.
Outro caso semelhante foi o da chamada “Crise do Subprime”, em 2008, também nos EUA. Tudo começou no setor imobiliário americano e acabou se estendendo por todos os setores da economia, não apenas de lá, mas do mundo todo. O negócio foi tão feio que grandes bancos tradicionais quebraram, como o Lehman Brothers, por exemplo, ou chegaram ao limite. O mesmo aconteceu com as seguradoras. Desta vez, no entanto, os governos de diversos países criaram pacotes de estímulos chegando até a injetar liquidez.
Por que estou citando estes dois casos? Junte parte deles e temos o cenário da crise atual, que contou não apenas com o surto de uma doença grave com proporções de contágio mundial com um colapso da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) provocado por um desacordo entre Rússia e Arábia Saudita que derrubou o preço do petróleo, umas das commodities mais importantes atualmente. A cereja deste bolo é o isolamento social, estagnando as economias, algo que nem convém discutir ser ou não necessário.
O que me incomoda é a atitude de certos formadores de opinião. Ontem mesmo eu li uma matéria de um site dizendo que “responsabiliza os ricos, poderosos, governos e megacorporações pelos danos que promovem na vida de milhões de pessoas em nome do lucro”. Particularmente não gosto desse tipo de ideologia vitimista, que só pensa em si como se os outros tivessem algum tipo de obrigação para com ele, ou seja, aquele que quer ser empresário para obter sucesso e ter conforto na vida, na realidade tem apenas a obrigação de manter outras pessoas. O mesmo se pode dizer em relação aos governos. Ora, bem sabemos que o governo tem por base dar empregos e transferir recursos (dinheiro para saúde, educação, etc.), e quando não falta sabedoria para administrar, a verba mingua. Mas sobra opinião e malandragem! Veja que há muitos que querem que sigamos o que pretende fazer o presidente americano (escrevo esta crônica às 13h00min de 23/mar, a volatilidade das notícias é tanta que corro o risco de ficar obsoleto na mensagem, mas segue o jogo) e distribuir dinheiro para o povo que está ocioso em casa. Por enquanto, de acordo com o noticiário atual, cada cidadão americano adulto de menor renda deverá receber do governo um cheque de US$ 1.200,00 (algo em torno de R$6.000,00), além de um adicional de US$ 500,00 (algo em torno de R$ 2.500,00) para cada filho menor de idade. Até então, Alemanha, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido já pensam em algo similar. E é justamente o que o povo quer agora: Receber uma grana do governo para minimizar a pancada.
Só que mal sabem eles, inclusive o povo gringo, que parte dessa grana é vinda da emissão de papel-moeda, ou seja, o governo simplesmente manda imprimir dinheiro que neste momento ainda não será refletido na inflação, mas para igualar a balança, uma hora a conta chega. Não fosse assim, qualquer problema, como os que citei há pouco, por exemplo, poderia ser sanado assim, bastava que o governo emitisse dinheiro e distribuí-lo ao povo. Contudo, o efeito disso não é o que você, estimado leitor, pensa, e sim o contrário; o excesso de inflação empobrece o povo. Só para ter uma ideia, é exatamente isso o que a Venezuela tem feito há tempos, e sua inflação beira os 10.000.000% ao ano!
Outra consequência – para uns até boa – é que o que o governo Trump está fazendo na América fará com que o ouro, uma importante commodity que serve de lastro para muitos governos, seja valorizado. Não é á toa que o Goldman Sachs tenha recomendado compra. Se você tiver grana para o longo prazo...
Uma das coisas que as pessoas precisam saber é que crises vêm e vão, e com elas sempre aparecem oportunidades. Só quem aproveita é quem se prepara. O que você tem feito nesse período de quarentena? Trabalhado, estudado ou assistido televisão o dia todo? Quanto de reserva você tem hoje? Esteja preparado e não entre na pilha de quem não está. •

Esse artigo também foi publicado no Jornal Folha de Nanuque e no Jornal de Uberaba em Março de 2020.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

AS CRÍTICAS SOCIAIS E O CARNAVAL 2018


Tempo de abadá, pouca roupa, biquíni de fita isolante ou fantasias caríssimas; Tempo de marchinhas, axé, samba ou funk, o Carnaval deste ano – acredite – teve um forte cunho crítico e de expressão política. De reprimendas à sonegação de impostos a políticos sendo comparados a ratos, teve de tudo.
O vampiro foi representado pelo professor de história Léo Morais

Enquanto o presidente Michel Temer estava no Norte do país revendo, dentre outras questões, a dos venezuelanos, e dizendo que a oposição não deveria existir para derrubar governos, mas para “ajudar os governantes a acertar o rumo”, na Sapucaí, ele era, digamos, “homenageado” com uma figura de vampiro Drácula, na escola Paraíso do Tuiuti. Nada muito diferente do pedido de socorro da Beija-Flor, que levou para a avenida intolerância, violência e outras críticas sociais com um desfile que muitos classificaram como “pesado e emocionante”. Isso porque não é só do trio elétrico que o povo vai atrás. Um verdadeiro mar de gente invadiu o sambódromo do Rio atrás da escola que encerrou o Carnaval deste ano entoando o enredo da escola, que foi: “Monstro é aquele que não sabe amar (os filhos abandonados da pátria que os pariu)”.

Mas não foi só Temer o alvo de críticas, não. Lá no Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, prefeito da cidade que fugiu da festa e foi para a Europa, segundo ele para “uma viagem de trabalho voltada à área de segurança”, foi representado como um boneco de Judas, traidor do carnaval, enforcado pela Mangueira, que trouxe o enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”. Em resposta, Crivella divulgou uma nota dizendo que foi vítima de “intolerância religiosa”.
Vai, bonitão! Agora quero ver...
De prefeito no Rio, só o de São Paulo. João Dória esteve por lá para se divertir e tirar selfies com a galera. Por falar em São Paulo, por lá muitos denunciaram um problema que toma conta de todos nessa época do ano: A falta de latas de lixo e de banheiros químicos são desculpas pela falta de educação de jogar lixo no chão e fazer xixi na rua! Que vergonha... Mas nada muito pior do que arrastões e afins, ou de ver nossa imagem correr o mundo com turistas estrangeiros serem, no mínimo, assaltados.

Enfim, em muitos lugares, o Carnaval acabou. Nesse período, Iemanjá devolveu muita oferenda, muita gente brincou, dançou e pulou, outras, ficaram no sofá curtindo maratona de filmes e séries, ou vendo as Olimpíadas de inverno na Coreia. Para muitos, nenhuma surpresa, para outros tantos, daqui nove meses, veremos o resultado. Enquanto alguns ainda cantam as músicas que aprenderam, há quem vá desfrutar uma bela ressaca moral, com direito a frase: “Ah, eu te conheço de outros carnavais...”. •


Esta crônica também foi publicada no quadro "Aí Tem", na Rádio Sete Colinas (101,7 FM), de Uberaba - MG.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

RABO PRESO


Quem nunca ouviu falar na expressão “rabo preso”? Imagine um ratinho que consegue escapar da morte trágica de uma ratoeira be
Encontrei na internet a imagem perfeita...
m armada. O pulo defensivo o salvou da condenação final, mas, por ter a cauda longa, esta acabou prendendo-o, deixando à mercê de qualquer um. Claro que não é essa a origem do termo, que geralmente está ligado à nossa política, mas bem que podia, principalmente porque a analogia serve muito bem para aquele que ocupa o mais alto cargo no Brasil! Não é segredo para ninguém que nosso estimado presidente comprou – com dinheiro público – sua permanência no cargo. E agora a conta está chegando. Conta que nós pagamos, enfatizo. Em 2017, a lista de emendas parlamentares pagas pelo governo inclui desde campeonato de motocross no interior de Minas Gerais até show do Wesley Safadão. O jornal “Estadão” diz que: “do total de R$ 2,27 bilhões liberados, ao menos R$ 5,73 milhões foram para quitar cachês de artistas”.

Mas não é só uma questão de liberação de verba. Existem também as nomeações, e pouco importa o que o povo pense a respeito. Um dos exemplos é a designação de Cristiane Brasil para o Ministério do Trabalho, que está marcada para às 15:00 de hoje (terça-feira) no Palácio do Planalto. Como pode alguém ser responsável pela pasta que gere políticas e diretrizes para a geração de emprego e renda, e que por premissa dá apoio aos trabalhadores, se ela própria não cumpre e já foi até condenada? Segundo reportagem do Jornal Nacional, Cristiane já respondeu a duas ações trabalhistas, e, numa delas, foi condenada a pagar R$ 60 mil porque contratou um motorista particular sem registrá-lo em carteira. Duas ações já foram protocoladas no Rio de Janeiro – terra da deputada – com ações populares para tentar barrar a posse da nova ministra.

Mas não vamos pegar apenas no pé do presidente. Aqui em Minas a coisa parece não ser muito diferente, já que o diretor do Departamento Estadual de Trânsito de Minas Gerais (DETRAN – MG), César Augusto Monteiro Alves Junior, acumula 120 pontos em infrações em sua Carteira Nacional de Habilitação. Como se isso já não fosse o bastante, não foi a primeira vez que o diretor indicado pelo governador Pimentel alcançou pontuação alta em seu prontuário, ele já teve a carteira de motorista suspensa por 60 dias, em 2012, ao acumular 50 pontos! É claro que com a notoriedade, o delegado determinou a abertura de um procedimento administrativo contra si mesmo para apuração. Agora ele vai suspender a própria carteira, fará seu próprio curso e em seguida a devolverá a si mesmo. Tudo isso sem nenhuma dificuldade.

Só mesmo em terras brasilis... Seria cômico se não fosse trágico. •



Essa crônica também foi publicada no Jornal de Uberaba e no quadro “AíTem”, na Rádio Sete Colinas (101,7 FM) de Uberaba – MG.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O ANO DO CÃO (INCERTO)


Encontrei essa imagem na internet. O que está escrito,
não faço a menor ideia... Pode até ser que esteja
dizendo: "2018 é nóis, mano. Tamo junto!",
sei lá.... 
Enfim começou 2018! Quer dizer, ainda não, já que o ano do brasileiro só começa após o carnaval... Mas isso é assunto pra outra hora. Segundo o horóscopo chinês, este ano é do “Cão de Terra”, aos que acreditam em tais previsões, as pessoas serão mais tolerantes e terão mais empatia, tornando-o repleto de equilíbrio. Ainda de acordo com o prognóstico oriental, também estará em alta a lealdade, a honestidade e a fidelidade, porém, também teremos momentos ruins e de fraqueza. Já para os mais céticos, o futuro é sempre incerto e, com relação a 2018, não será nada diferente. A começar pelo fato de ser ano eleitoral e de Copa do mundo (preciso explicar a correlação?). Isso sem contar com as remanescentes questões sobre as reformas da Previdência e Tributária. Será que serão aprovadas? E se forem, poderão elas contribuir para melhorar as contas públicas e fortalecer a competividade da economia brasileira?

E como diz a famosa frase: “Para olhar para o futuro, precisamos olhar para o passado”. Em 2017, muitos especialistas, economistas (e tudo mais “istas”) teceram diversos comentários dizendo que o Brasil finalmente deixou para trás a mais profunda depressão econômica da sua história, mencionando coisas como crescimento do PIB, queda da inflação e da taxa Selic, mas o brasileiro é contestador (principalmente depois que inventaram a internet), por isso, há quem diga que a inflação só caiu porque não se tem dinheiro para comprar e que nossa economia está tão asfixiada que não tem “Black Friday” que dê jeito! Quem estará certo? Antes de responder, pense em como você usou seu dinheiro nos últimos meses.

Voltando a falar sobre a maior de todas as incertezas (refiro-me à eleitoral e não ao fato de o Brasil ser hexa). Por mais que se fale em nomes como Bolsonaro, Lula, Marina Silva & Cia. Ltda., ainda não sabemos ao certo quem serão os candidatos, muito menos o que farão se eleitos. A incerteza é reforçada nas pesquisas que mostram que a maioria dos eleitores ainda não optou por nenhum dos que estão aí correndo com pré-campanhas nem um pouco veladas – e ilegais, diga-se de passagem –. Todos, sem exceção, têm taxas de reprovação maiores do que as de aprovação. Aliás, as únicas coisas certas para este ano são: muitos políticos vão mentir pra caramba, pois ainda há quem acredite em “Contos de Fadas contemporâneos”, você vai ter que ser cada vez mais criativo, ter mais iniciativa e continuar matando um leão por dia.

Enfim, que em 2018 tenhamos sucesso em nossas escolhas, que haja um real crescimento econômico, que os políticos corruptos sejam presos (ou, no mínimo, impedidos de concorrerem a cargos públicos) e que, acima de tudo, tenhamos paz. •

Esta crônica também foi ao ar pela Rádio Sete Colinas (101,7 FM) de Uberaba e publicada no Jornal de Uberaba.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A DOR DE BARRIGA

O casal andava pelos corredores de uma enorme loja de departamentos. De repente, o marido escuta um barulho vindo da direção de sua mulher. Sem perder tempo, já soltou:
– Tem vergonha não? Eu ouvi, hein?
– Soltei mesmo. E só tem você por perto, então não enche!
Já um pouco afastado, o homem riu daquela situação. Algum tempo depois, a mulher, já com semblante nervoso, o chama para ir embora. Sem dizer nada, mas estranhando, o marido seguiu em direção à saída da loja, balançando a chave do carro. Porém, antes de entrar no carro, mas já no estacionamento, a mulher andou apressadamente à procura de um banheiro.
Apenas observando o comportamento de sua esposa, o homem ficou em pé ao lado do carro sem dizer nada enquanto a via andar de um lado para outro. Quando ela se aproximou, já disse quase de modo esbaforido:
– Vamos embora logo que eu não estou bem... Minha barriga está começando a doer.
– Mas dá pra aguentar até chegar em casa, né?
– Anda logo, entra nesse carro, homem!
Sem retrucar, ele deu partida no carro e começou a dirigir. Já no trânsito, a impaciência da mulher começou a se tornar ainda mais evidente quando ela gritava pedindo para que ele acelerasse mais o carro e até infringisse a lei, ultrapassando os faróis vermelhos. Vendo a atitude da mulher, o homem queria rir, mas se segurava. Nem mesmo ele sabia o porquê de achar graça daquilo tudo. Antes de responder que não podia cometer aquela infração, ele olha para a mulher e a vê esticada no banco, gemendo e suando frio. O pânico em seus olhos era evidente, parecia que a qualquer momento ela fosse explodir. E, fazendo força como estivesse de algum modo se trancando em meio aos gemidos, mais reclamação, já quase aos gritos, sobre o trânsito.
O homem viu que não daria para ir pra casa. Fez a volta e acelerou o carro em direção a um supermercado. Ao entrar na cancela da entrada do estacionamento, a mulher xingou a voz que desejava “boas vindas e boas compras”. Já com receio de qualquer incidente naquele carro, o homem dirigiu rapidamente à porta principal e ficou reparando se a mulher iria se borrar enquanto adentrava a procura de um banheiro. Depois de achar uma vaga, entrou no mercado, comprou algo pra comer e validou seu ticket, que dava direito à uma hora de estacionamento.
O tempo foi passando e nada de sua esposa chegar. Já preocupado, ele se preparava para ir atrás de sua esposa. “O que será que aconteceu com essa mulher?”, ele pensava enquanto imaginava milhares de situações possíveis e imagináveis – todas elas envolvendo uma grande sujeira – “será que ela está sem papel? Acho melhor ligar...”. Pegou seu celular e ligou, mas ela havia deixado a bolsa no carro.
Quase quarenta minutos depois, a mulher chega. O rosto pálido era um misto de alívio e angústia. Ao entrar no carro, antes que o homem pudesse perguntar qualquer coisa, a mulher diz:
– Melhor você não abrir a boca pra falar nada... Ou não acha que eu percebi que você estava tirando sarro da minha cara? Você sabe que me intestino vive preso e quando solta é de uma vez! E eu nem sei pra quê estou te dando satisfações... Vamos embora logo, Arlindo! E não quero ouvir um pio!
No trajeto para casa, só restou ao homem imaginar o que havia acontecido enquanto continha sua vontade de rir daquela situação. Ele sabia que se soltasse o riso, poderia sofrer consequências que não cheirariam nada bem. •


Esta crônica também foi publicada no Jornal de Uberaba.