terça-feira, 5 de julho de 2016

A TEIMOSIA TEM NOME: CACO

Nas minhas andanças por aí, conheci um homem que passava dos limites da teimosia. Até hoje não consegui descobrir o nome dele, mas sei que o apelido era Caco. Tenho certeza que você conhece alguém teimoso, ignorante e bruto. Desses, tem aos montes por aí. Mas Caco por certo ganha de todos.

Que foi? Vai encarar?
A única pessoa que tinha paciência para ficar perto de Caco era Emir. Seu fiel amigo desde a meninice estava sempre disposto a ajudar o companheiro e principalmente, aguentar suas grosserias. Certo dia, os dois estavam trabalhando na fazenda, capinando uma roça, quando Caco começou a reclamar da quentura do sol:
– Não aguento mais! Que vida é essa! Já estou de saco cheio disso tudo! Amanhã eu vou embora daqui desse lugar dos infernos!
– Caco... Não fale assim não... – Dizia Emir com voz lenta repreendendo mansamente – é até pecado reclamar desse tanto...
– Pois eu reclamo mesmo! Não aguento mais! E não tem essa de pecado coisa nenhuma!
Mal ele acabou de falar, Caco se transformou num sapo. Virou notícia pra tudo que é lado. Todo mundo queria saber o que aconteceu e Emir calmamente explicava pra todo mundo sobre o castigo de Caco por ter reclamado demais. Durante muito tempo, Caco, agora sapo, ficou coaxando na lagoa daquela fazenda, até que um dia, com a mesma ligeireza, se transformou de volta em homem. Castigo terminado, as coisas ainda demoraram um tempo para voltar ao normal, mas com seu mau humor de sempre, Caco conseguiu espantar os curiosos.
Como num Déjà vu, lá estavam os dois amigos novamente trabalhando no mesmo lugar, na mesma roça, quando Caco esbravejou:
– Esse sol quente dos infernos... Não aguento mais! Já estou ficando de saco cheio!
– Fala isso não, Caco... – Retrucou Emir pacientemente – Já se esqueceu, foi? Não pode falar assim não... É até pecado falar uma coisa dessas...

– Pois eu falo mesmo! E qualquer coisa, a lagoa tá logo ali!  •

sexta-feira, 1 de julho de 2016

PILOTO AUTOMÁTICO

Tenho pra mim que o primeiro veículo com piloto automático foi o cavalo. Especialmente o de Melito – que aliás não sei se era nome ou apelido. Eu ainda era um menino quando estava de férias no interior da Bahia, quando presenciei uma cena que jamais me esqueci.
Aliás, esta em especial, mas cheguei a ver inúmeras cenas parecidas depois. Estou falando de gente que enche o caneco e depois de já não ter mais consciência terrena, resolve voltar pra casa montado em seu cavalo. Mas chegar lá é fácil, afinal, o piloto automático está ligado e vai ajudar. O problema é subir na montaria.
Enfim, falemos sobre a cena que não esqueci, ou melhor, voltemos um pouco para entender mais. Melito era homem falador. Gostava de cumprimentar e conversar com todos. Era o famoso “curva de rio”, pois para caminhar poucos metros, enroscava em cada pessoa para falar da vida. Coisa normal de interior.
E lá ia ele, com seu chapéu de couro na cabeça, uma camisa xadrez, – deste detalhe não me esqueci pois minha mãe tinha uma toalha de mesa idêntica àquela – calça jeans e uma bota de bico fino, daquelas de matar barata no canto da parede. Depois de muito beber, resolveu que era hora de voltar pra casa. E foi aí que o show começou.
Melito se tornou a atração da Venda. Alguns presentes que ainda beiravam a sobriedade viraram a atenção para aquele infeliz feliz que tentava subir em sua montaria. Ouvi alguns até casar aposta de que ele não conseguia. Levou uma perna e nada. Levou a perna de novo, dando algumas pedaladas pra ver se alcançava o estribo. Nada. Sentindo o inconveniente do insucesso, mudou de posição e mudou de estratégia. Apoiando as duas mãos sobre o lombo do paciente animal, recuou tomando impulso para o pulo. Com as orelhas pra trás, o cavalo prestava atenção, bem como os demais, que gritavam. Alguns incentivando, outros caçoando. E eu, só observando. O pulo foi de mais ou menos três... Centímetros. Tentou novamente, mas o segundo salto foi irrisoriamente maior que o primeiro. Outro insucesso.
Mas foi aí que ele ficou arretado de bravo. Apoiando somente uma das mãos no lombo do coitado do cavalo, o ébrio esticou o braço, tomou distância e saltou, conseguindo deitar apoiando a barriga sobre a sela. Impulsionando com as pernas, foi subindo cada vez mais e ao passar uma das pernas, começou a escorregar, e mesmo agarrando o pescoço do cavalo com força, caiu do outro lado. Só não se esborrachou porque o animal não era alto.
Em meio a gritos de ovação, Melito se sentiu encorajado – ou envergonhado, não sei dizer – e como se tivesse um momento único de sobriedade, tomou o mesmo impulso de sua derradeira tentativa e conseguiu. A aclamação pública foi imediata. Acenando a todos como prefeito eleito, Melito partiu seguindo rua acima. Mas quem disse que as apostas terminaram ali? Aquele lugar ficou parecendo o antigo pregão de bolsa de valores! De qual lado ele cairia, ou a que tempo.
E lá ia Melito com seu esperto, paciente e fiel cavalo ligado no piloto automático. Ele pendia para um lado e para outro, quase chegando a cair, mas eis que sumiu na última curva da empoeirada estrada, acabando com a festa.

Dias depois, lá estava Melito novamente. Quase do mesmo jeito, não fosse um pequeno detalhe: Ele estava com um machucado no nariz e outro na testa. Embora não tenha confessado a ninguém, tenho certeza de uma coisa: O cavalo podia ter até piloto automático, mas não tinha air bag.  •
Ar e direção. Não tem air-bag. Único dono.

sábado, 25 de junho de 2016

HOMEM NA COZINHA...

Como muitos sabem, adoro cozinhar. E quando estou inspirado, sai de baixo – no bom sentido, claro – porque as comidas ficam realmente boas (ao menos é o que dizem os testemunhos). Mas nem sempre foi assim. Comecemos pelo começo.
Minha vida na cozinha começou tarde. Como todo homem, em minha adolescência, quando olhava que uma receita pedia um ovo inteiro, já imaginava que deveria ir clara, gema e... Casca! Imagine o resto...
Quando saí da barra da saia da minha mãe já com dezenove anos, passei apertado. Se não comesse na casa de alguém ou em restaurante, o cardápio da casa variava entre lanche e lanche. Às vezes também tinha lanche.
Como vocês puderam notar, a falta de criatividade começava a reinar. Foi aí que parti para macarrão instantâneo. Mas aquilo ainda demandava um mínimo de experiência com cozinha, por isso eu optava por aqueles de copinho, que só precisava adicionar água morna. E o que eu fazia? Ia até o chuveiro, abria pouco pra água sair bem quente... Et voilà! Em segundos minha super refeição estava pronta!
Mas depois de tanto cansar de cachorro-quente, pão com ovo e macarrão de copo com água de chuveiro, resolvi cozinhar. E após queimar muita panela, fazer muito arroz grudento e arruinar receitas fáceis, consegui finalmente adentrar no mundo culinário.
Depois eu conto mais sobre essa minha fase obscura (e cômica). Por ora, é isso. E você? Sabe cozinhar? Não? Sabe? Enfim, vou deixar uma receita fácil aqui. Foi uma das primeiras que aprendi e costuma agradar a todos: Polenta frita com molho de Gorgonzola. É só clicar aqui.
Forte abraço, beijo e até a próxima! •

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O DILEMA DOS QUARENTA

Como muitos aí já leram esse ano fiz quarenta
E fiz até uma postagem pra mostrar minha tormenta
Que a todo homem assombra: Sair da casa dos trinta

Principal é a situação de você ser cutucado
Pelado e na posição. Ter seu furo violado
Chega até me dar vertigem, não se trata de miragem

Da saúde é ter cuidado pra não ter nenhum problema
Doutor de dedo treinado: Eis aí então o dilema
Faço o exame ou faço não? Reflito sobre a questão

Eu que nunca dei as costas pra homem nenhum na vida
Já disseram: "Vai que gostas?" – Que pergunta descabida!
Fiz minha cara de brabo, pois não brinco com meu rabo

E se for, eu vou armado. Entro de cara fechada
Já querendo ir embora não quero nenhuma demora
E se acaso perguntar, uso a arma se eu gostar

Não se trata de machismo nem tampouco preconceito
Muito menos chauvinismo. Mas eu que não levo jeito

Das pregas bem como o resto: Não vendo, não dou, não empresto!  •

Vem neném!

quarta-feira, 8 de junho de 2016

AGORA, UM POUQUINHO SOBRE MINHA ADOLESCÊNCIA

Esses dias, enquanto estava assistindo televisão, me lembrei de quando era adolescente. Especificamente em uma parte – não tão legal assim – onde sofri na mão de dois valentões que moravam na rua de minha casa. Eram dois irmãos. Pensando bem, acho que até dou um pouco de razão a eles. Enfim, vamos começar do começo.
Eu devia ter uns onze ou doze anos. Um pouco acima da casa em que eu morava haviam dois irmãos fissurados em lutas. É engraçado lembrar que eles se achavam fortões e por conta disso usavam camisetas sem manga para mostrar os finos braços, mas estufavam o peito tal qual um galo garnisé. Mas não eram estes os irmãos que me aterrorizavam, no entanto, eles foram os causadores. Chegaremos lá.
Incentivado pelos irmãos karatê-kid, eu também comecei a agir como eles. Frequentemente andávamos os três com as camisetas enroladas nas mãos apenas para mostrar o raquítico peitoral estufado achando que estávamos “abalando”. Pouco a pouco, começamos a aumentar nossa gangue de “lutadores sem adversários” – sim, porque a única coisa que fazíamos era imitar os golpes que víamos nos filmes e comentar sobre eles – e conquistamos mais dois adeptos.
Só que aquilo ainda não era minha praia. Eu estava apenas sendo levado. E o motivo era um só: A prima deles. Sim, meus caros, eis o motivo de eu me deixar levar por tamanha ridicularia. O pior de tudo é que eu ainda me lembro da menina e ela nem era tudo isso. Uma morena bem magrinha, sem graça e metida. A única coisa que ela tinha de bonito era o enorme cabelo preto liso e comprido. De resto, nem simpatia. Mas o fato é que eu estava com aquela paixão reprimida.
E como todo bom adolescente, não poderia deixar de fazer uma burrada, não é? Pois foi aí que o bonitão aqui resolveu fazer uma “listinha” das garotas que já havia pegado – o detalhe é que eu nunca havia pegado ninguém – e dentre as listadas estava justamente aquela que eu julgava ser a garota dos sonhos. Mas a burrada não foi em fazer a listinha e sim em mostrá-la aos outros garotos com ar de vanglória. E fui mostrar justamente para os primos dela. Agora é que o caldo entorna, porque os dois – não sei se por ciúme ou não – contaram para os irmãos mais velhos dela, que também eram aficionados em lutas. Só que por serem mais velhos, já gostavam de partir para o tapa.
Quando esses dois caras souberam de tudo, vieram pra cima de mim e com dedo em riste me ameaçaram. É mais do que óbvio que eu neguei tudo, mas mesmo assim, eles pegaram tanto no meu pé a partir daquele momento, que, além de eu deixar de andar com os outros moleques e ficar só trancado dentro de casa, toda vez que eu voltava da escola – geralmente por volta das oito da noite – eu dava uma volta enorme só pra não passar na frente da casa deles.
Se eu fiquei de fato com a menina? Bom, isso é assunto pra outra história...  •